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Osculário (Lacrado) - Contos

No soar do ninho de um couto (lugar imune),
um filho desgarrado beija sua mão

Por vezes diante de uma palavra, de um rabisco de uma imagem, do silêncio de uma vírgula, da correnteza intransponível de um ponto sem final, somos lançados no depositário da existência e, irremediavelmente, não há como não se render às dores e aos prazeres insondáveis da natureza humana. Assim, no ninho do que é couto (que significa uma terra em que se proibia a entrada de estranhos), como estrangeiro somos enredados nas armadilhas de suas palavras. Em enaltecidos suspiros, ele, tão Coutinho, no mais dos pervertidos carinhos, se desnuda, sem nenhum pudor, em se render às amorosas influências da vida. No lugar da acusação, um beijo repartido, cinematográfico, como uma cena de um filme que só por ele poderia estar sendo feita, e no regalo do despudor, cada um, leitor, se aquiete diante da dor da alma ou se alvoroce na exuberância de um gesto ora profano ora sacro, conforme a necessidade da alma.
Eu, entregue aos devaneios do pensamento, sempre segredava que ?a vida bem que poderia ser um beijo na boca?, após ser assaltado por tão ásperos e amáveis beijos coutinianos, me rendo e só me resta afirmar que ?a vida bem que poderia ser um beijo na boca, mesmo quando não há como escapar da condição dolorosa do existir?.

Gilberto Freire de Santana
(Dr. em Ciência da Literatura: Teoria da Literatura (UFRJ) e professor de Teoria Literária (Uema)

  • Editora: Kiron
  • Autor: Antonio Coutinho (autor)
  • ISBN: 978-85-8113-308-9
  • Origem: Nacional
  • Ano: 2014
  • Edição: 1
  • Página: 180
  • Acabamento: Brochura
  • Dimensões: 14x21cm

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